sexta-feira, 23 de novembro de 2012

O Sábio


Um Sábio disse:
 
- Elas querem sempre mais...

Um aprendiz perguntou:

- Mais o do que?

- De tudo. – o Sábio completou.

Ao lado, dois copos de bebida.

Um par de braços cruzados.

Um tolo argumentou:

- É verdade, elas nunca estão felizes. Não sabe o que querem. Só sabem que querem sapatos...

A tola retrucou:

- Não é verdade! Eles é que são gananciosos. Querem mais dinheiro e mais mulheres.

O Sábio suspirou.


terça-feira, 29 de maio de 2012

Binômio


Uma dualidade. Assim como a tristeza é inerente à felicidade. Forças complementares. Cargas opostas que fazem pares. A prosperidade só existe por prestígio de prévia agonia, e ser triste quer dizer que você já foi feliz um dia.

A existência é fragosa e prodigiosa; é exceção à regra; é o ponto alto de uma parábola em queda livre; é apenas a contínua prostração que resulta em fim. Essas são palavras de um Fulano de Tal.
 
Mas o que é vida, afinal?

Não querer ser triste é negar à si mesmo futura alacridade. Por outro lado, assumir a ventura é encarar de peito aberto o abismo sob o próximo passo. Isso porque de lá você não passa. Isso porque por lá, tudo passa.


Abdicar de qualquer extremo é viver em constante apatia. É a impassível sensação de uma vida vazia. Comprar o pão da manhã e cear a noite. Rodar num círculo onde nada se cria.

Ser for pra ser feliz, então que a angústia venha serena e rasteira, que veja que tudo isso é apenas besteira, mas que não me saiam os bons tempos da memória. Que me guiem por ela os tempos de glória.

Se for pra ser triste, então que eu agüente cada ponta. Que eu bata contra a faca, lute, e deixe a roda toda tonta. E a torne! Para que eu veja pra mim toda pronta, aquela cadeira estirada, e que me espere trincando, aquela cerveja gelada.

Na escolha, na atual situação, me sinto tranqüilo em admitir qualquer decepção. Eu sei que o dia em fim acaba e amanhã terei outra condição. Escolho agora ser amargo. Par que nessa consternação eu possa, livre e solto, encontrar minha afeição. Quero fazer de cada queda uma vitória e viver em contínua, e impossível, ascensão. Por fim, é tudo, na verdade, simples contradição...

Sou triste e sou feliz. Não interessa. Já fui feliz um dia. E amanhã, é outro dia...

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Espiando

Abri os olhos e vi a poeira dourada pairando no cômodo, acentuada pelo feixe de luz que se esgueirava pelo quarto. Cobertas reviradas e emaranhadas, quatro travesseiros, e vários pares de roupa. Um silêncio calmo e preguiçoso era interrompido aos poucos por sons de movimento pela casa. Chamei pelo nome dela, e do banheiro veio a resposta, pela porta entreaberta. De lá vinham os barulhos de pentes e escovas de dente. De lenços e fios de cabelo. O bom dia veio numa sintonia alegre e sorridente, transparecendo esbanjo de bom humor, reflexo de uma noite bem passada. Sorri também. Ela levantou mais cedo sem me acordar, só para se arrumar. Levantando vagarosamente, esticando a coluna e alongando os braços, escolhi uma música que sabia ser do seu gosto. Para que soubesse que era para ela. Aumentei o volume para ensurdecer meus passos e encobrir minha espreita. Desci alguns goles de água pela garganta e inclinei a cabeça para observar. Apoiei o ombro no batente da porta. Olhei escondido pela fresta que permitia uma visão do espelho. Ela, com apenas as roupas íntimas, segurava os cabelos para cima enquanto se arrumava pela manhã. Toda a pele, com brilho de diamante e toque tenro de veludo, reluzia a luz que vinha do outro lado, e tonalizava com as luminárias da parede. Movimentando tenuamente todo o corpo, de maneira sensual, mas contida, pessoal e privada, dançava pelo primeiro riff da melodia. Mas a melhor parte era o sorriso sincero e particular que ela ostentava. Era o mais lindo que alguém pode notar. Eu a vi ali sem maquiagem, sem produção, sem nenhuma das cortinas que se costumam usar. Parte do batom estava ainda no meu pescoço. Eu a vi sem ela saber. E por um bom tempo eu fiquei ali escondido, aproveitando e me contagiando. Deixando-me embriagar daquele cheiro que estaria em cada sonho e me esverdear do tom daqueles olhos. Sem querer perder nada daquela cena. Sem me arrepender porque ela é do meu tipo. Eu não queria perder nada, porque não existia algo que eu não pudesse ser naquela hora. Como se eu me sentisse a razão e o motivo, o fim e o objetivo, de cada gesto. Eu era aquele movimento. Mas antes de chegar ao fim da rotina matinal, prendendo o cabelo um pouco mais ao lado corpo, sobre os ombros, eu recuei. Queria manter aquela imagem dela nua e desprotegida. Dela como ela é. Dela como eu a faço. Mas sem que ela soubesse, para que não se envergonhasse disso, ou se ofendesse com qualquer sorriso. Eu sorri e me alegrei. Registrei. E fui preparar um café.

sábado, 28 de maio de 2011

Afinal, quem sabe?

E lá estava eu. Vim careca e banguela, e não pedia por nada mais do que um pouco de leite. E esse leite custou caro. É a primeira coisa que você pede, depois de ar, e é só a primeira das muitas que vão te dar. Normalmente sem você pedir. Eu sei que soa maldoso e ingrato, mas eu nunca pedi que me dissessem as coisas. Mas, “once you know, you never know”... (uma vez que você sabe, nunca se sabe...). Aos meus olhos, maldoso mesmo é colocar algo na cabeça de uma pessoa. Sabe por quê? Porque depois de colocado, é muito difícil de tirar, impossível de esquecer, e sempre vai estar lá, num lugar onde só ela pode saber, e com aquilo tem que conviver. Não lembro bem, mas depois do leite, dei uma de bobo e tentei copiar os outros. Tentei levantar. Segundo maior erro, perdendo apenas para o leite, mas me ensinaram a andar. Triste dizer, mas depois daí, isso não parou mais. Você anda, e tem que saber trotar, você trota, e tem que saber correr, você corre, e vão querer te ver voar. Tudo para que? Para bater em maior ou menor velocidade contra o chão quando tiver que parar? Não se engane. A vida para! Passaram-me algumas palavras, e de “gugu” “dádá” queriam as tais sílabas, que se juntavam em palavras, montadas com verbos e sujeitos, - esses nem sei quem são, - tudo só para uma oração. Mas eu nem sabia o que pedir à Deus. Devia ter pedido pra tudo parar, e as pessoas poderem escolher. Sabe, ninguém nunca sentou na minha frente e perguntou se eu queria a pílula azul. Foi mais como se me dessem ela esmigalhada dentre o miolão do pão de cada dia, como se a cada manhã eu tivesse algo mais a aprender. E aqui essa analogia pode parecer muito mais completa do que parece. Pense em quem não teve o pão. Mas essa não é a questão agora. Eu quero articular mais a benção como uma maldição. Quem sabe não é por isso que dizem tanto do diabo, e do tal pão que ele anda amassando. Não vejo muito essa falsa ideia de livre arbítrio ou opção. De sermos todos livres para escolher. Veja bem: você não escolhe nascer, e certamente não escolhe quando morrer. Ou seja, você vem e vai, te colocam e tiram dessa terra cheia de gente, iniciam e finalizam sua vida, e nem mesmo sobre isso você tem um palpite. Nem mesmo quanto ao mês que gostaria de nascer, se é mais chegado ao frio ou no calor. E depois disso, é consenso geral que você não sabe o que é melhor para você. Mas aí está o grande erro. Todo mundo sabe quando é pequeno! Todo mundo grita e chora quando está com fome, e depois de comer, dorme! Mas depois de ser bombardeado por tantas decisões tomadas por outros, apenas esquecemos que a resposta está dentro da gente. A gente esquece o instinto do choro. Ficamos apenas mal acostumados a não escolher. Por um bom tempo você não escolheu o que comer, nem o que vestir. Opinião sobre o que vai fazer do seu dia, também não teve muita. E, quando por um breve momento da sua vida, você achar que está com poder sobre ela, ledo engano. Você não escolhe tanto assim o seu patrão, ou a decisão do indivíduo com uma faca na mão na próxima esquina. Você não escolhe o que os outros vão fazer. E aqui reside a parte mais capciosa de todo o esquema: você não decide por você, outros o fazem, mas você também não decide pelo outros. . Você não vai conseguir escolher a fortuna de outrem. Afinal, se nem mesmo por você é possível escolher. Porque escolheria pelos outros? Então me digam agora: quem escolhe? Escolha existe? Desde pequeno te colocam numa ilusão onde você tem que saber coisas para sobreviver. Ensinam coisas erradas e certas, depois te dizem que o senso comum mudou, e o certo é um pouco errado, e o errado já parece mais aceitável. Mas te fazem saber coisas. E isso tira a sua paz. A paz predomina apenas no coração daqueles que nada sabem, e gozam da liberdade da ignorância. Enquanto você não sabe o mal que te fazem, ele quase nem dói. O momento em que te ensinam sobre o significado de paz ou felicidade é quando você perde a chance de tê-las de novo. Desculpe amigo, mas você estava nelas até chegar a essas linhas. Depois disso, a paz e a felicidade se tornam só miragens atrás das quais todos teremos que correr e ir atrás, sem saber que a paz está na ausência de movimento frenético. A paz se torna apenas uma utopia a ser perseguida, mas só perseguida, nunca achada. Quando se corre, não se está parado. Não se está em paz. Mas mais uma vez, isso também não é questão de escolha... e não importa sua opinião. Quanto mais se tem, mais exigem de você. Quanto mais se sabe, mais você deveria saber, e vão te cobrar isso. E depois de ver a luz, fica impossível viver na escuridão. Você tira dos pulsos o peso das algemas, mas põe nos ombros, o peso do mundo. Ou melhor, fazem isso por você...

terça-feira, 29 de março de 2011

A longa espera

Ela estava lá sentada, com as pernas cruzadas, costas retas, queixo num perfeito ângulo reto e as mãos sobrepostas uma na outra no meio da coxa. Uma pose digna de foto e de fictícia nobreza. Entre os dedos duas guias laçadas atavam em suas pontas em cada uma um Schnauzer. Brincos pesados e colar de pérolas escurecidas adornavam a foto e combinavam bem com o casaquinho surrado de camurça, retratando alguma moda passada. Afora os cãezinhos pulantes à sua volta, ninguém mais ocupava o banco na praça. E ela parecia a espera de algo. Como se a certeza de um encontro furtivo a mantivesse ali, com firmeza. Muito era visível naquela cena, e nada fazia feliz. O tratar de seus animais de estimação como filhos, à chamados de “bebês” revelavam a falta de uma cabeça em seu leito pedindo cafuné. Seus filhos, se teve, já eram crescidos, e não davam mais bola pra ela. A companhia animal também fazia parecer não ter mais muitas amigas, e a pele envelhecida, cabelos afinados e grisalhos repintados, as rugas... isso só mostrava o quanto ela tinha passado daquele tempo. A marca forte em seu anelar esquerdo expunha a ausência de uma jóia de compromisso, e o traço triste sob as olheiras carregavam a viuvez. Mas ela continuava altiva. Ela continuava inchada. Via-se que a beleza uma vez esteve presente em sua face, mas não mais agora... não criava mais a mesma atração. Não duvido que ela sabia disso. E como sempre, as mãos revelam. Nós calejados e dobras malhadas contavam a história de um trabalho manual, e as marcas no dedão me faziam acreditar na agulha e na costura. Hoje ninguém mais precisa de alfaiate e costureira particular. Ali sobrava amor de mãe. Sobrava amor de amante. Sobrava conversa e trabalho. Só sobrava. Um olhar me Maria das Dores carregava a longa espera, e as longas mínguas. E tive dó. Senti a pena. Senti a lacuna criada pelo falecimento da juventude. Então não joguem fora as suas. Mesmo assim, talvez não seja possível entender o valor da juventude, pelo menos não até que ela se desfaça. Pelo menos não até que ela faleça. E eu já sei. Sei bem o que ela esperava encontrar. Ela estava ali sentada, com o espírito de uma criança, esperando pelo príncipe encantado montado no cavalo branco, trazendo o robe que lhe daria de novo a elasticidade. Ela estava à espera do amor que perdeu. Do filho que cresceu. Do valor que abafou. Do carinho que passou. Da amizade que se desfez. E de tudo aquilo que aquelas pérolas me contam que um dia viram. Ela foi feliz! Cada brilho do anel grita, “eu fui feliz e vi o mar”! E mesmo que tenha agora que aguardar pela próxima vida, e uma nova chance de ser completa novamente, ela vai esperar. Vai sim. Porque aquela alma sabe o quanto vale ser feliz.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Personagens num bar

São vários, os boêmios. Cada um tem seu tipo, mas são todos iguais. Iguais pelo menos no amor pela noite, na companhia da cachaça, nos jogos de azar e na divisão da fumaça. Todo boteco tem um dono, também quase sempre um patuscão, que conhece bem a freguesia e lida à força, e não com educação. Sempre tem um dormindo na mesa de canto, enquanto outro lhe tira a carteira, com a maior cara de santo. Ele dorme pois não agüenta mais o gole, não tem mais dinheiro, nem mais jeito de alimentar sua prole. Enquanto um galã xaveca uma mulher honesta, outro, cambaleando, é tirado pela porta. Para ele acabou a festa. Quem sabe beber, sabe, quem não sabe, não se comporta. E é por isso que aquele dorme. É por isso que quem der bobeira some. Metade não paga a conta, outra metade faz o que pode, e é só a terceira metade que realmente consegue patrocinar o pagode. Mulheres vão à caça vestidas de carneiro, e o lobo sai pagando por tudo, todo faceiro. O artista do submundo se expressa, mas sem aplausos, só é musica de fundo. A cada nota torta do violão uma palavra grossa de mais alguém que foi ao chão. Um sobe sobre a mesa e leva um tapa. Já é de manhã e alguém sai à comprar pão, outro acaba cerveja, mas é cedo, e pede outra lata. Três amigos conversam, dois amigos apostam, um sozinho fica de olho, e dois inimigos se arriscam. Garrafada pra todo lado. Fim da noite com briga. Fim da noite, nossa amiga. Quebram uma mesa, e os copos são vários. Um puxa o gatilho, e corpos, esses também são vários...

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

E assim, Tadeu...

Ele:

- Vai querida, respira, comigo, vamos!

Ela:

- AHHHH, que doooor, assim eu não agüento, não quero mais, eu não consigo!

- Não pode ser assim, “agora não brinco mais”, agora não tem jeito.

- Dói muito! Não dá! Não vai passar!

- Meu amor, você consegue sim, empurra, comigo, no três; Um.

- Fácil falar né seu inútil, ta aí só olhando.

- Dois...

- Pare de contar seu bosta, não está ajudando!

- Três! Empurra!

- Vou te empurrar pra fora dessa sala! O obstetra nem chegou ainda!

- Amor, eu to nervoso, ok?

- Eu estou com um ser vindo de dentro de mim me rasgando de baixo pra cima, e o senhor está nevosinho? Aff, por favor... AAAAAHHH!

- O que? O que foi?

- Essas contrações são de matar – ela ofegando fortemente.

- Tem algo que eu possa fazer para ajudar?

- CALA A BOCA E CHAMA A ENFERMEIRA!

- Nossa... então é assim... depois reclama que eu não colaboro...

- Aaaaaaaaaaaiiiiii!!! Meu Deus, o que é isso?! ai ai ai ai... ta vindo, chama lá, CHAMA LÁ PORRA!!!!

- Uau, nunca vi você falando assim enh... o que uma barriguinha não faz...

- AAAAAAAAAAAHHHH!!

- Ta bom, ta bom, pelo jeito está doendo, já entendi, saquei, não sou tão tapado assim só porque sou homem, tá? Vou lá chamar...

Um Doutor correndo no corredor com cheiro de malte e olhos baixos:

- Sim, o que foi? Hic (soluço).

Ele:

- Doutor, minha mulher está tendo um bebê, acho que está vindo, precisamos do senhor.

- Senhor está no céu meu filho, hic, eu to aqui no chão mesmo e meu horário já terminou, hic, até mais...

- Mas eu não sei o que fazer! Ela está lá gritando de dor.

- Hic, todas gritam... hic... é só o que sabem fazer. A minha mulher estava gritando comigo agora mesmo no telefone.

- DOUTOR! Estou falando sério, ela está em trabalho de parto!

- Hic, sim, sim, elas são um parto... quer um trago? Hic – virando mais um gole.

- Não, obrigado.

- É 12 anos... vai te relaxar... hic....

- Sério? Aceito então! – ele toma um trago.

15 minutos e várias doses depois... ele, entrando na sala:

- Amoooor, hic, olha quem eu achei no corredooooor! Dr. Roberto! O cara é muuuito gente fina.

- Ricardo, você está BÊBADO, seu desgraçado?!

- Nããão, claro que não, amor... hic... – ele virá para o médico e diz sussurrando, porém em voz alta:

- Ixi doutor, acho que ela sacou... hic...

- É filho, essa sua aí é esperta... mas sabe, você é um cara da paz, te considero muito!

- Ôô doutor, eu também! Temos que marcar um bar aí um dia, de repente jogar um futebolzinho...

Ela interrompe:

- ALOOOOU! Eu to tendo um filho aqui!!! Dá licença?? AAAAH!

- Ah, sim, claro, filho, chame a enfermeira ruiva ali para mim, sim?

- Hic, ruiva?

- Sim, a loira é cheia de não me toque, hic. – o médico vira para a mamãe - Então Sra., parece que vamos ter uma criança aqui! Hic...

Entre contratempos e soluços, a criança vem à luz, e a mãe suada e exaurida a recebe no colo:

- Ai meu Deus, obrigado, ele é tão lindo! Ainda bem que não parece com o pai!

- Como assim querida? Deixe-me ver, hic. Ah, mas é bonitinho mesmo, não é?

- BONITINHO???

- Quero dizer, é a coisa mais linda que, hic, eu já vi! Viu aqui doutor? Meu piazão? Esse aqui vai ser pegador! Ó o tamanho da ferramenta aqui! Puxou o pai!

- Ricardo, cala a boca... como assim “coisa” mais linda? Seu inútil. E se puxar essa merreca aí, é melhor ser rico, senão aí sim vai acabar que nem o pai...

- Ei, não precisa, hic, ofender não...

Indignada com a situação e espumando de raiva ela decide:

- Eu vou escolher o nome!

- Ei, mas a gente já não tinha escolhido Carlos? Carlos é uma boa, hic, não é “dóc”?

Doutor:

- Sim, eu gosto...

Ela:

- Não, você escolheu Carlos, eu quero Lucas.

- Aaah não, querida, nome bíblico não...

- Por que, qual o problema?

- Não quero, não gosto, não vou chamar, você vai chamar, hic, sozinha. Só você...

- Então será Rafael!

- Ah amor, mas aí quando ele for pequenininho vão ficar falando, hic, Rafael cara de pastel, crianças odeiam isso, você sabe.

- Ah, mas que coisa mais besta, Ricardo!

- Não querida, eu não vou chamar de Rafael. Hic...

13 nomes depois, discussão e mais uns soluços ébrios. Ela se cansa:

- Tá, deu então! Pra mim chega. Depois a gente vê isso, quando você estiver sóbrio.

- Tá, deu?

- Isso, chega!

- Tadeu é bom.

- Chega Ricardo, quero acabar a discussão.

- Não, não, querida, Tadeu é um bom nome, meu tio avô era Tadeu, eu gostava muito dele, ele me dava uns biscoitos que...

- O quê? Do que você está falando?

- Ueh, você não sugeriu Tadeu? Eu gostei, fica esse.

- Hã?

- Você acabou de falar, mulher! “Tadeu e chega”.

- Meu Senhor, Ricardo, como você é IMBECIL! Mas... sabe... gostei de Tadeu! =D


E assim, Tadeu...

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Esqueça

Como se cada palavra dita pudesse ser retirada ou trocada. Como se cada insulto pudesse se tornar um elogio. Cada gesto duro um afago. Mas que também cada fraqueza se tornasse virtude e cada falha um ponto forte. Se naquele dia você pudesse ter dito a coisa certa, e não virado as costas. Não ter ficado parado quando queria ter se movido e seu corpo lhe negava a ênfase. Mas ter segurado o pulso quando ele deferia mais um golpe. Aproveitado a batida forte do seu coração quando o mundo parou de girar naquele primeiro momento. Assim você poderia ter degustado o olhar. Apreciado o perfume e vivido um pouco mais. Se a gente pudesse simplesmente voltar e ver novamente aquele luar refletindo no mar formando o caminho que a gente não seguiu. Daria você passos firmes pela água? Se a decisão de separar ou juntar o que parecia encaixar pudesse ser retomada. Completaria você o quebra-cabeça ou deixaria que só as bordas preenchessem a mesa? Se aquele bilhete da loteria pudesse ter os números certos em troca daquela noite na varanda. Seria você rico e feliz sem aquela lembrança? Cada fotografia retratando um momento que passou, congelando no tempo menos que um segundo. Segundos que contam histórias que nunca mais serão tão verdade quanto eram à época. Se naquele retrato você pudesse estar ao meu lado em vez de estar à frente perdendo a chance de encontrar a minha mão. Continuaria você do outro lado dessa sala? Se antes de embarcar naquele avião eu não tivesse na boca o gosto de café, mas de um beijo seu. Teria eu ficado tão ausente? Fato é que cada chama ainda vive pelo que queimou um dia. Que cada gota de um riacho passa só uma vez pela mesma pedra e só pode escolher uma vez para que lado desviar. Você nunca mudará o que aconteceu e passou, mas ainda pode sorrir. E esse sorriso pode fazer seu destino te manter aquecido. Fique alerta como cada gesto ecoa pela eternidade, e como consolo saiba que ninguém mais podia ter feito diferente, ou não teria sido você. Assim como tem hoje tudo que pegou pelo caminho, pegue agora o que você precisa, e doe o que lhe sobra. Doe seu amor, e ele sempre voltará. Você não pode mudar. Você só pode fazer diferente daqui pra frente. Faça valer cada chama, e não fique muito triste quando uma ou outra se apagar, pois isto faz parte da vida, e uma hora ou outra, você vai as ver de volta. Então esteja pronto para surpreender. E esqueça...

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Sobre um Sonho

Eu tive um sonho, e dele não quis acordar. Mas acordei. E é aí que reside toda minha frustração. Não no sonhar, mas no despertar. Assim como não lhe faz mal a vivência, mas a impotência que nos recolhe ver ela passar. Aquele tempo todo e aquela vida que construí, todo aquele futuro sobre meu passado, eu vi. Ela sorria, e o meu tempo não passava. Ela acordava e ao vê-la, encontrava tudo que esperava. Anos foram na terra de Morfeu, enquanto só uma noite se esticava pelo meu relógio. Lembro como um sonho bom. E como todo bom sonho, a cada segundo desse alvorecer, menos lembro, e mais espaços brancos se somam à essa imagem dessa vida que tive. Ou que não tive. Sem abrir os olhos, busco remontar a foto, tento emoldurá-la na memória. Mas cada esforço se mostra em vão, enquanto cada olhar se desfaz, e cada beijo seca. Vejo-me dentro daquele retrato que derrete, e busco por ela. Aquela que deu a tudo o sentido que nunca encontrei. Como num corredor que nunca acaba, quanto mais eu corro, mais longe ela fica. O chão se abre e pareço cair dentro do nada. Não muito diferente do que foi realmente. Não muito diferente do que vi em minha mente. Mas assim “os sonhos cedem ante a impressão de um novo dia, da mesma forma que o brilho das estrelas cede à luz do sol.” E nessa manhã a luz me ofusca e apaga cada fragmento onírico que possa remanescer dentro de mim. De tudo que sei que sonhei. Lembro apenas de um momento. Lembro dos cabelos loiros refletindo a luz das chamas. Espalhados sobre meu peito. Sinto ainda o cheiro de jasmim e da vontade mútua do encontro. Os dedos entrelaçados e os olhos fechados. As velas iluminavam o quarto, e as pétalas brancas cobriam cada espaço. O resto todo não vejo. E o melhor é saber que lá o impossível aconteceu. Por isso quero voltar a dormir. Pois nada se pode cogitar de tão despropositado, de tão confuso ou surreal que não possamos sonhar. Sei que não é impossível, porque aconteceu uma vez. Mas o sonho bom acabou, e eu quero voltar a dormir. Só dormir... por mais cinco minutinhos...

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Fim das Férias?

Passado um bom tempo em recesso, fiquei sem computador. O que foi um alívio total! É bom saber que no fim essa maquininha não faz tanta falta.

Mas mesmo assim, pretento voltar à ativa, com as programações normais do blog, buscando a proposta colocada.

Vamos ver se já consegui colocar minha cabeça denovo no mundo real.

Segue abaixo a primeira postagem de 2011.

Reflita... nem que seja Só Por Um Minuto...

E à todos, um EXCELENTE ANO NOVO!

Um lugar que não existe

Conheci um cara. Não lembro o nome dele, mas isso não é tão importante quanto o que me contou. À princípio achei um conto de fadas, uma estória bem bolada. Ele voltava de algum lugar com um sorriso no rosto, com a pele queimada de sol, o cabelo com sal do mar. Só usava bermuda e uma regata, pisando descalço sobre as pedras e areia. Embora a vestimenta fosse simples, andava como um lord, mas ginga de bêbado. Olhou-me fundo nos olhos e me pediu por fogo enquanto pegava um cigarro amassado de trás da orelha. Acendeu o tabaco puxando uma longa e espessa tragada. Pude escutar os estalos da queima. Ainda com meu isqueiro não mão, prendeu por dois segundos a fumaça, e soltou num alívio tão grande que até mesmo eu relaxei. E ele sorriu. “Amigo, encontrei!” Intrigado, e querendo meu acendedor de volta, perguntei sobre o achado. Ele me disse que voltava da beira do mar. Tinha dormido lá sem querer, na areia mesmo, e acordou com a maré subindo aos seus pés. Disse que o mar o acordou com muita delicadeza, e que a areia lhe serviu como ótimo travesseiro. “Encontrei!” Mas eu ainda não sabia o quê. Sorriu. Contou-me sobre a epífane. Acordou com meio sol no rosto e uma brisa leve no torso. Isso bastou para lembrar da noite, e perceber que naquele momento não precisava de nada. Entendeu que tudo aquilo que buscava era em vão, se passasse mais tempo trabalhando do que dormindo na areia. Ele encontrou um lugar. Não uma localidade. Mas um lugar. Um sítio de encanto sublime. Passou a noite ao lado de alguém que o fez sonhar e ver o céu. E mesmo assim, sem mais nada, nem mesmo ela, ele acordou com tudo que precisava. Ele acordou sem nada. Não precisava de nada. Confidenciou-me que adorou descobrir isso, e que passou um bom tempo nesse estado de fortuna extrema, onde rico não era aquele que tinha mais, mas aquele que precisava de menos. E passou horas como um milionário. Para sua maior felicidade ainda, percebeu que a vida lhe provê o que lhe falta, pois quando precisou de fogo eu cruzei o seu caminho, e ele sorriu. Entendi a profundidade daquele conforto na expiração do fumo. Eu lhe dei mais algumas horas de paz profunda, pois no momento em que precisou de algo, eu sanei, e assim ele podia alongar ainda mais o sentimento. E, por fim, antes de continuar seus passos bambos para o infinito, fechou a lição e me disse: “Acabei vindo de longe, passando horas no meio do nada, encontrar alguém diferente e acordar comigo mesmo, para, sozinho, descobrir o mais importante. Aprendi o que na realidade eu já sabia. Só não tinha conhecimento disso.”

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Direitos Humanos

Essa semana vários carros, após assaltados, foram queimados no meio das ruas do Rio de Janeiro. Em Sampa, tiram sarro da polícia com caixas lacradas em frente à prédios públicos, como se explosivas fossem, acionando até esquadrão anti bomba e isolamento do local. Tudo isso é terrorismo e falta de respeito. Como se já não bastasse a alta criminalidade e violência nas ruas das grandes metrópoles, agora temos barbárie aos inocentes.

Mais tarde, quando um desses autores vai preso, hipócritas vem com um caderno de direitos humanos. Exigindo bom tratamento, alojamento adequado, respeito e diversas outras prerrogativas. Sem ingenuidade, conhecendo o sistema prisional brasileiro, admitindo que vão pessoas inocentes e que merecem defesa para as cadeias, também sei que a maioria que está lá não está por acaso.

Vamos defender a bandidagem! Afinal, não é porque o infeliz matou, estuprou, assaltou, violentou e aterrorizou cidadãos que merece apanhar, certo? Ele também tem direitos humanos... Sinceramente? Pura palhaçada! Pura demagogia! Pura sacanagem escancarada!

Se é pra trabalhar com direitos humanos de bandido, ladrão e assassino, vamos olhar com outros olhos. Sejamos realistas. Também quero MEUS direitos humanos! Vamos colocar de lado todo aquele papinho determinista. Eu deveria ter direito à segurança; mas me tranco em casa com mais dispositivos de segurança do que um cárcere. Meu direito à liberdade como fica? Enquanto não posso sair na rua em determinados locais e horas, pois sei o risco que corro. Em São Paulo não posso andar de carro sossegado, correndo o risco de ser roubado, humilhado e ainda ter meu veículo queimado em praça pública. O cidadão está pagando três vezes pela segurança que deveria ser respeitada. E ainda, quando aqueles rompem a lei sem piedade, são cheios dos direitos humanos! “ah, mas se você fosse para cadeia? Não exigiria o mesmo?” Jogam na minha cara. Eu quero saber o que aconteceria se você aí, defensor da humanidade, estivesse num parque ou numa praia, fosse assaltado, a mulher abusada, e deixados na rua escutando passos e risadas dos meliantes. Isso acontece todo dia. Isso acontece com você e comigo.

Respeito entregamos a quem nos respeita. Aqueles que nos machucam, soco na cara! E não venha me dizer que assim estou me colocando no mesmo nível deles, porque bater num maldito assassino não me faz outro. Até onde peca Sivuca com slogan de campanha “Bandido bom é bandido morto”?

Ainda quero meus direitos humanos. Também quero exigir os MEUS. Até onde eu sei, não feri ninguém. Ainda sou humano. (com o perdão da palavra)


Notícia da Semana = olhem os jornais, todos dizem a mesma coisa

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Is this it?

Não estava tudo escuro, mesmo sem nenhuma lâmpada branca lá dentro. As luzes coloridas davam conta da iluminação, no mesmo ritmo da música. O strobo criava uma sensação de tempo em quadros à minha volta. O álcool movia minhas pernas, e a cabeça só acompanhava a melodia.

♪ Can’t you see I’m trying? ♫

Alguém me acertou com o copo. Ela me acertou com todo o corpo. Não foi intencional. Mas o melhor acidente da noite. Não escutei, mas pelos seus lábios bem delineados eu li tudo o que eu queria, e entre sorrisos eu vi pretextos. O meu show mudou de direção, e a banda estava atrás de mim. Enquanto os feixes de luz cobriam a platéia, eu olhava para o escuro, contemplava o vermelho, e esperava refletir nos olhos dela, logo depois do verde. Aquilo refletia em mim.

♫ Is this it? ♪

Movimentos leves moviam os cabelos castanhos criando um caminho pelo qual eu queria andar. Como se pudesse ouvir sua voz, eu podia traduzir toda a letra pelas palacras que ela cantava. E ela sabia toda a canção. Eu sabia também, sabia tudo, mas não sabia o nome dela. Cada flash de luz intermitente me mostrava uma posição diferente, e cada uma parecia sempre ser mais linda que a última, e nunca me satisfazia tanto quanto poderia satisfazer a próxima. Eu a queria dançando a noite toda.

♪ Said they’d give you anything you ever wanted ♫

Eu daria a ela tudo que ela sempre quis. Tudo que ela pudesse pedir ou querer naqueles três minutos de som. Por mim o show não acabaria nunca. Nem a voz do cantor. Nem os acordes da guitarra. E a caixa não iria parar de ser batida. O vidro na minha mão esquentava com a minha febre, e ela também sentia calor. Nunca tinha visto tanta sensualidade em arrumar o cabelo para trás, nem no escorrer de uma gota de suor. Passou entre os dedos cada madeixa e prendeu tudo junto para trás, eu queria estar junto, e já estava preso.

♪ Oh dear, can’t you see? ♫

Eu estou bem a aqui! Mas acho que nenhuma luz me focava. E ela não me viu. Todos a viram. E eu só olhei pra ela. Não dei bola para quem me olhava, e eu sabia que alguém o fazia. Eu sei que alguém tentou falar comigo. Alguém passou as mãos no meu ombro, e pelo perfume doce, e a leveza no toque, poderia ser alguém que eu queria. Mas não era ela, pois ela estava bem a minha frente, poucos metros alem dos meus braços. Alguém chegou e eu não pude ver mais nada. A canção acabava, e junto se esvazia meu contentamento. Em meio à multidão não pude mais achá-la. E até mais tarde, só pude lembrar de cada traço. Degustar cada passo. Acabou?

♪ Is this it? ♫

♪ Is this it? ♫

♪ Is this it? ♫


( Is this it? - The Strokes )

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Filtro Solar


“Se eu pudesse dar um conselho em relação ao futuro, diria: Usem filtro solar.”

Essa é a frase inicial de um dos vídeos motivacionais mais interessantes já produzidos. Quem ainda não assistiu, é recomendado que invista oito minutos em alguns pensamentos que fazem muito mais sentido do que parecem. É possível encontrar o vídeo no YouTube pelo nome de Everybody’s free to wear sunscreen!

Milhões de pessoas ao redor do mundo assistiram à esse curta metragem, e hoje percebi que varias levaram realmente à sério. Eu admito ter encontrado lá uma filosofia de vida. Mas isso diz respeito aos demais conselhos “ofertados” pelo locutor, enquanto, engenhosamente, este diz ser o mais importante de todos o uso de filtro solar. Aos meus olhos, este era o de menos importância, e elevo dentre todos aquele que diz: “É quase certo que os problemas que realmente tem importância em sua vida são aqueles que nunca passaram a sua mente, tipo aqueles que tomam conta de você às quatro da tarde em alguma terça-feira ociosa.” Afinal, foram inúmeras as vezes pensando em coisas pequenas sentado numa mesa no centro da cidade tomando café preto. E mais tarde percebemos que algumas daquelas pequenas coisas poderiam, verdadeiramente, mudar o rumo da sua vida. Pode parecer exagero, mas quando você pensou sobre ir ou não atrás daquela pessoa atraente que conheceu na semana passada, estava pensando em algo que mudaria sua vida, pois esta pode ser a pessoa com quem irá casar, e isto mudará sua vida. Não o prazo que seu chefe estipulou para ontem. Empregos, achamos outros. Acredite.

Hoje tudo isso vem à cabeça graças à recente aprovação do projeto do vereador municipal Juliano Borghetti. Com certeza ele deve ter assistido a esse filme. Afinal, sua lei, a fim de evitar doenças de pele, “obriga” as empresas da capital a fornecer protetor solar aos funcionários que trabalham expostos ao sol. Ele realmente levou isso a sério.

Agora, a parte interessante do assunto, é que ele utilizou uma lei para dar um conselho! Sim! Pois a lei não prevê nenhum tipo de punição ou multa para as empresas transgressoras. Figurem uma empresa com mais de cem funcionários, gastando com filtro solar para todos esses metros quadrados de pele. No final do mês, e ainda mais ao final do ano, o dinheiro investido nesse empreendimento já justificaria pagar uma multa qualquer. Atitude que muitas empresas tem perante multas administrativas, visto que todas objetivam lucros, e quando a multa sai mais barato do que o respeito à norma, a punição é mais lucrativa.

Sem ter nenhuma motivação para cumprir a lei, quantos realmente vão fazer isso?

Seriamos otimistas se pensássemos numa proporção igual ao do número de pessoas que assistiram ao vídeo do filtro solar, em fim, ambos tratam apenas de conselhos...



Notícia da Semana

Use Filtro Solar - Vídeo

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Crônicas

Genial na simplicidade é o Wikipédia quando diz que “uma crônica é uma narração, segundo a ordem temporal. O termo é atribuído, por exemplo, aos noticiários dos jornais, comentários literários ou científicos, que preenchem periodicamente as páginas de um jornal.
Crônica é um gênero literário produzido essencialmente para ser veiculado na imprensa, seja nas páginas de uma revista, seja nas páginas de um jornal. Quer dizer, ela é feita com uma finalidade utilitária e pré-determinada: agradar aos leitores dentro de um espaço sempre igual e com a mesma localização, criando-se assim, no transcurso dos dias ou das semanas, uma familiaridade entre o escritor e aqueles que o lêem.”

Não tenho um jornal e ninguém me contratou ainda. Mas procurando preencher com completude minha proposta e tentar alcançar com vocês certa familiaridade, farei o possível para transformar a quinta-feira numa periódica semanal com postagem de crônicas. Assim, o leitor pode visitar toda semana, e sempre vai achar algo novo. Demais produções, vão sendo públicas à medida da inspiração. =D

Começando com a de baixo, hoje, quinta feira, dia 11 de novembro.

100 anos?

E assim, mais gente rasga a fita de chegada da corrida centenária. Eu não quero isso pra mim. Hoje eu descobri que o Paraná é o país com o maior número de cidadãos que passaram dos cem anos. Previamente já são mais de 727, só aqui. Estamos ainda em oitavo lugar no país, e somando todos os ultra idosos, são 17 mil pessoas. Imagine quantos anos de vida isso soma! Daqui a pouco ficam pra trás as tartarugas! São mais de um milhão e setecentos mil anos vividos! Milhares de pessoas que cresceram sabendo do mundo através do rádio e carregando lamparinas. Incontáveis experiências e situações. Vidas iniciadas e findas. Histórias e estórias. Sonhos conquistados e quebrados. Vários corações. Esses também quebrados... Temos hoje uma expectativa de vida de 77 anos às mulheres e 69 para os homens. Ainda bem que sou homem. E ainda me assusta onde isso pode chegar. Se há vinte anos os 7 palmos de terra cobriam os “sessentenários”, e agora esses chegam nos 80 com facilidade, quem me diz até quando eu vou viver? Tenho medo de ficar na espera por 90 anos. No fundo, a vida é uma grande fila de espera. E enquanto isso a gente faz o que faz, ao invés de ler uma revista. Sem pensar nas conseqüências financeiras e sociais para o bem público em vidas assim tão duradouras, eu me preocupo com a distância da minha jornada, pois andar demais cansa. Fato é: sofrimento é inerente à velhice. Aqui cito José de Alencar em momento iluminado quando diz que “A vida é luta renhida, que aos fracos abate, e aos fortes só faz exaltar”. Então que me abata sem exaltação! Louro nenhum provém de ter 90 anos “mas estar bem fortinho – ele até anda pra lá e pra cá, ora vejam só!.” Prezo pela juventude, e a beleza não está na idade. Anos trazem experiência, e tentem me provar o contrario, por favor. A vida vale enquanto podemos produzir ou ajudar quem precisa. Bom seria viver enquanto a saúde me acompanhar e vigor me carregar, e deixar tudo pra trás durante o sono da tarde, de barriga cheia do almoço, deitado numa rede ao balanço do vento. Se possível sonhando e sorrindo. Lembrando de quando eu subia escadas sem ter que parar, atrás de moças com peles lisas como pêssego. Não gosto de uva passa. É amargo. Viver é amargo. Vivemos em busca da felicidade, certo? Isso porque não estamos nela, senão não precisaríamos caçá-la. Vida é busca por algo que até vem, mas nunca fica. Não pensem em mim como um infeliz. Amo a vida, e vejo maravilhas em todos os cantos. Mas não posso ficar sem dignidade. Então se eu chegar a dar trabalho e olhares expressarem pena de mim, chame a dona da foice, porque nunca gostei de hora extra, e não quero cumpri-las nesse expediente.


Notícia da Semana

domingo, 7 de novembro de 2010

Uma noite, de manhã

“Adorei a noite, beijos”. Foram as poucas palavras que li em um pedaço de papel ao meu lado, assim que a luz do sol cortou um espaço pela persiana esquentando meu rosto. O cheiro dela ainda estava na cama, as marcas do corpo esguio ainda marcavam o lençol e o travesseiro colocado de lado, como ela gostava. Mas ela não estava ali. A lembrança da noite anterior parece mais como um vidro embaçado. Como lentes de um óculos mal lavado. Até recordo da sétima dose, quando já não sabia mais onde estava, mas tinha certeza que ela já era minha. Eu não deveria ter dirigido naquele estado, mas parece que foi o que fiz. E ela não deve ter se importado. A noite foi longa, se estendendo por toda a madrugada. Cada cômodo, dos poucos, desse apartamento viram um pouco de ação. E em cada um ainda pode-se achar uma peça da roupa que eu usava ontem, mas as dela não estavam mais por lá. Não posso reclamar, pois não esperava muito mais que uma noite. Um caso só. Não tive nem tempo de pegar o número do telefone, em meio aos beijos trôpegos, em meio aos abraços afoitos. Concordo com proveitosa noite. Mas a mesa do café está posta à dois, e eu só preciso de uma xícara. Mais uma vez vou comer pão sozinho ao meio dia. Mas o importante foi se entregar ao momento. Foi levantá-la na parede com amor, e trazê-la abaixo com fervor. Todos devem fazer isso. Partilhar um momento com alguém pouco conhecido, de maneira que não exista um passado, e nem mesmo vai haver um futuro. A mais pura definição de viver o presente. Não interessa o que um dia você fez, nem ela, e não interessa nem mesmo se prefere café puro ou com leite, porque nem mesmo isso vai fazer parte da relação. São dois corpos que se usam, embebedando entre si a medicação. A troca de calor aquece, e te relaxa a falta de preocupação. Cada um sabe o que faz, e se não sabe, vai descobrir em breve. O melhor de tudo é o anonimato que a embriaguez permite utilizar. Não lembro dela, e ela não vai lembrar de mim. Um batom avermelhado marca meu colarinho, e são vários os fios castanhos pelo chão. É tudo que sobrou dela. Foi mesmo uma ótima noite, mas foi só uma. Uma brisa leve, tão leve quanto pluma. Algumas cenas ainda estão na minha cabeça, e lembro as disposições. Mas isso prova que a carne se cura, mas ficam os vazios nos corações.